Venâncio Mondlane acaba de ser eleito presidente da Aliança Nacional por um Moçambique Livre e Autónomo, Anamola, por unanimidade dos delegados presentes na primeira Convenção Nacional do partido, realizada em Nampula. Em entrevista à RFI, Mondlane delineou as ambições do partido, criticou duramente a gestão de Daniel Chapo e confirmou a intenção de se candidatar às eleições presidenciais de 2029.
Eleição sem surpresas, mas com legitimidade
Mondlane foi o único candidato à presidência do partido que fundou em Agosto do ano passado e que liderava interinamente. Ainda assim, considerou a eleição legítima. “Havia sempre duas possibilidades: a de votar em branco ou votar na única candidatura disponível. E aí podiam acontecer duas hipóteses: ou ser eleito ou não ser eleito”, explicou, sublinhando que o regulamento permitia que qualquer membro concorresse livremente, sem impedimentos.
As seis linhas estratégicas do Anamola
Mondlane definiu as prioridades do partido: tornar-se, até 2029, o maior partido político de toda a história democrática de Moçambique; liderar a propositura de políticas públicas; encabeçar iniciativas legislativas; afirmar-se como o partido mais moderno e tecnológico do país; consolidar-se como o único partido verdadeiramente de massas; e corrigir o que classificou como “um erro histórico de 50 anos”, tornando Moçambique um país democrático, com respeito pelos direitos humanos, Estado de direito, livre concorrência e redução da carga fiscal.
Autárquicas de 2028: candidatura em todas as autarquias
Questionado sobre as eleições autárquicas de 2028, Mondlane rejeitou a ideia de que o Anamola é um partido apenas das redes sociais. “Já ninguém a defende. Estamos implantados em todo o território nacional, não só nas zonas urbanas e suburbanas, mas até nas zonas rurais”, afirmou. O partido pretende concorrer nas cerca de 65 autarquias do país e, com base na retroalimentação das bases, acredita ter condições de ganhar a maioria.
A Escola Anamola: formar quadros para governar
No seu primeiro discurso após a eleição, Mondlane afirmou que “uma vitória eleitoral é fácil” e que o mais importante é preparar técnica, psicológica e emocionalmente os quadros do partido para a governação. A resposta passa pela criação da Escola Anamola, que formará quadros em pilares fundamentais da governação e em tecnologias de informação e comunicação. O plano prevê uma formação intensiva de dois anos, com consultores e docentes já recrutados entre simpatizantes no exterior, de forma a ter capacidade técnica e humana suficiente até 2028.
Ruptura com as bandeiras de 2024
Mondlane reconheceu que o percurso político incluiu uma fase de parceria política transitória nas eleições gerais de Outubro de 2024 — cujos resultados não reconhece —, mas explicou que a auscultação dos eleitores e membros do seu projecto o levou a avançar para um projecto político próprio, genuíno e original: o Anamola.
Chapo e a “muralha do diálogo”
Sobre o diálogo nacional inclusivo, Mondlane recordou que a iniciativa nasceu de uma carta que escreveu ao então Presidente Filipe Nyusi em Novembro de 2024. Apesar de o Anamola estar excluído da comissão técnica que gere o processo, o partido submeteu uma proposta de reformas com mais de 400 páginas, abrangendo as áreas fiscal, eleitoral, política e constitucional.
Quanto a Daniel Chapo, Mondlane foi directo: “Vai ficar na história como aquele que concretizou o sinistro da muralha do diálogo em Moçambique.” Apontou dois factos para sustentar a acusação: em menos de um ano de existência do partido, 56 membros seniores do Anamola foram assassinados, algo que classificou como sem precedentes na história democrática moçambicana, mesmo nos períodos de hostilidades militares com a Renamo; e que uma proposta formal de integração do Anamola na comissão técnica do diálogo, enviada directamente a Chapo, ficou sem resposta durante mais de sete meses. O mesmo aconteceu com um relatório detalhado sobre cerca de 450 casos graves de violação de direitos humanos sofridos por membros do partido.
Forças de segurança envolvidas nas mortes e desaparecimentos
Confrontado com as conclusões da investigação “Mozambique Exposed”, publicada pela RFI em parceria com outros meios, que aponta para uma ligação entre o desaparecimento ou morte de jornalistas e membros da oposição e as forças de segurança moçambicanas, Mondlane afirmou estar “plenamente de acordo”. Citou o caso do jornalista Arlindo Chissale, membro do seu projecto político, que desapareceu misteriosamente em Cabo Delgado a 7 de Janeiro de 2025. “O modus operandi mostra claramente que são as forças de defesa e segurança que o fazem. Há uma força especial, muito concreta, da polícia que executa esse tipo de operações: o Grupo de Operações Especiais e o SERNIC”, afirmou.
Candidatura presidencial em 2029 confirmada
Mondlane não deixou margem para dúvidas quanto ao seu futuro político. “Sem sombra de dúvida. Vou dizer claramente que sim”, respondeu quando questionado sobre uma eventual candidatura presidencial em 2029, invocando o aconselhamento constante dos membros do partido e da população em geral como razão determinante para avançar.







